{"id":2567,"date":"2014-06-27T22:18:00","date_gmt":"2014-06-27T22:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/noticias\/a-queda-dos-investimentos-privados-na-economia\/"},"modified":"2014-06-27T22:18:00","modified_gmt":"2014-06-27T22:18:00","slug":"a-queda-dos-investimentos-privados-na-economia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/noticias\/a-queda-dos-investimentos-privados-na-economia\/","title":{"rendered":"A queda dos investimentos privados na economia"},"content":{"rendered":"<div class=\"ftpimagefix\" style=\"float:left\"><img decoding=\"async\" width=\"250\" alt=\"cardoso\" src=\"http:\/\/economiasc.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/cardoso-300x300.jpg\"><\/div>\n<p><b> Daniel dos Passos, Jos\u00e9 \u00c1lvaro Cardoso e Mairon E. Brandes*<\/b><\/p>\n<p><b> <\/b><\/p>\n<p>O resultado do PIB brasileiro no primeiro trimestre evidencia crescimento, ainda que baixo, em rela\u00e7\u00e3o ao trimestre imediatamente anterior (0,2%). O que preocupa \u00e9 o valor adicionado pela ind\u00fastria (-0,8%) \u2013 retra\u00e7\u00e3o na de transforma\u00e7\u00e3o (-0,8%) e na de constru\u00e7\u00e3o civil (-2,3%), crescimento na extrativa mineral (0,5%) e na de eletricidade e g\u00e1s, \u00e1gua, esgoto e limpeza urbana (1,4%) \u2013 e a queda nos investimentos (-2,1%). Cabe destacar que, na compara\u00e7\u00e3o com o primeiro trimestre do ano passado, a ind\u00fastria registra crescimento de 0,8% e os investimentos mant\u00e9m a taxa negativa de 2,1%.<\/p>\n<p>O consumo das fam\u00edlias registrou leve queda na varia\u00e7\u00e3o trimestral (-0,1%) e registra crescimento com rela\u00e7\u00e3o ao ano passado (2,2%), enquanto o consumo do governo segue registrando crescimento (0,7% e 3,4%, respectivamente). Assim, percebe-se que, de fato, a retra\u00e7\u00e3o dos investimentos tem segurado um maior crescimento de nossa economia e esse \u00e9 um desafio que precisa ser superado n\u00e3o apenas para a economia crescer mais, mas tamb\u00e9m crescer de forma sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por que a queda nos investimentos? Algumas considera\u00e7\u00f5es:  Quem investe s\u00e3o os capitalistas e o governo, n\u00e3o os trabalhadores. Os trabalhadores consomem e precisam ser melhor remunerados para que seu padr\u00e3o de consumo tamb\u00e9m mude, se diversifique, impulsione a demanda por manufaturados e desenvolva o mercado interno.<\/p>\n<p>Por parte dos empres\u00e1rios, existe, de um modo geral, uma cultura conservadora na gest\u00e3o dos neg\u00f3cios, com forte resist\u00eancia a investir e inovar. Existem estat\u00edsticas e estudos que corroboram essa afirma\u00e7\u00e3o. Segundo a Pintec de 2011, na ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, a m\u00e9dia de investimentos por empresa em pesquisa e desenvolvimento (P&amp;D) \u00e9 de 0,7% da receita l\u00edquida de vendas. Outro exemplo \u00e9 a pesquisa que partiu do prof. Paulo Feldmann da FEA\/USP que deu origem ao livro \u201cEmpresas Latino-Americanas\u201d, onde caracteriza o perfil dos empres\u00e1rios brasileiros.<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas cultural, existem elementos objetivos\/materiais que desestimulam novos investimentos, sendo alguns de ordem estrutural e outros, conjuntural. Do ponto de vista conjuntural, o fato de termos elei\u00e7\u00f5es presidenciais em outubro pode fazer com que grandes projetos de iniciativa privada sejam adiados.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma enxurrada de an\u00e1lises, nos principais ve\u00edculos de m\u00eddia, que o ano de 2015 ser\u00e1 um ano de ajustes e se considerar-se as pesquisas de confian\u00e7a dos empres\u00e1rios, percebe-se um indicador em baixa. J\u00e1 os investimentos p\u00fablicos cresceram nesse per\u00edodo. Segundo uma pesquisa do Valor, que analisou os investimentos p\u00fablicos realizados em 25 unidades da federa\u00e7\u00e3o, esse dobrou no primeiro quadrimestre desse ano com rela\u00e7\u00e3o ao ano passado, atingindo a cifra de R$ 10,49 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>No plano estrutural, persiste na economia e sociedade brasileira uma estrutura de poder extremamente concentrada cujo processo se intensifica em tempos que o capital assume car\u00e1ter transnacional. O problema dessa din\u00e2mica \u00e9 que resulta na forma\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lios ou oligop\u00f3lios que, n\u00e3o raramente \u2013 em fun\u00e7\u00e3o de press\u00f5es externas e internas \u2013 t\u00eam os pre\u00e7os dos seus produtos elevados, aumentado o custo e prejudicando a competitividade em outros setores da atividade industrial que dependem desses insumos (bens e servi\u00e7os).<\/p>\n<p>Apenas para constar, o lucro consolidado de 257 companhias que t\u00eam a\u00e7\u00f5es negociadas na Bolsa de Valores chegou a R$ 32,11 bilh\u00f5es no primeiro trimestre desse ano, uma alta de 6% com rela\u00e7\u00e3o ao ano passado. Se excluir dessa amostra a Petrobras, a Vale e a Eletrobr\u00e1s, a alta chega a 20%. Os bancos n\u00e3o foram considerados nessa amostragem, mas cabe destacar o resultado do Ita\u00fa, que teve lucro l\u00edquido de R$ 15,8 bilh\u00f5es em 2013 (alta de 12,8% com rela\u00e7\u00e3o a 2012) e do Banco do Brasil que lucrou, em 2013, R$ 15,7 bilh\u00f5es, uma alta de 29,1% sobre o resultado l\u00edquido de 2012.<\/p>\n<p>O Estado brasileiro \u2013 que cristaliza a for\u00e7a desse poder econ\u00f4mico em suas institui\u00e7\u00f5es -, e o governo, para n\u00e3o ficar de fora do jogo, participa de forma decisiva em setores econ\u00f4micos tidos como estrat\u00e9gicos em nossa economia, a fim de fortalecer esses setores diante da competi\u00e7\u00e3o internacional e manter algum poder de decis\u00e3o sobre eles e, em consequ\u00eancia, da nossa economia.<\/p>\n<p>O governo fica assim numa sinuca de bico. Ele precisa, por um lado, ceder a press\u00e3o dos pre\u00e7os nos setores em que participa diretamente, a fim de n\u00e3o travar a atividade econ\u00f4mica ou transmitir maior seguran\u00e7a para os investidores (mercado financeiro), permitindo novos investimentos e, por outro, n\u00e3o pode deixar os pre\u00e7os livres devido ao impacto inflacion\u00e1rio e suas implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais. Ent\u00e3o o governo decide segurar os pre\u00e7os de bens e servi\u00e7os em setores estrat\u00e9gicos, nos quais mant\u00eam poder de decis\u00e3o, subsidiando as empresas e oferece subs\u00eddios monet\u00e1rios e fiscais \u2013 taxas de juros subsidiadas pelo BNDES (como atrav\u00e9s do Programa de Sustenta\u00e7\u00e3o de Investimentos), e dedu\u00e7\u00e3o de impostos (desonera\u00e7\u00e3o da folha de pagamentos de forma permanente para certos segmentos que s\u00e3o intensivos em m\u00e3o de obra e apresentam perda cont\u00ednua de competitividade, Reintegra, Refis, entre outras medidas \u2013 para o conjunto do sistema produtivo a fim de manter a atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Com essa pr\u00e1tica, diminui sua pr\u00f3pria capacidade de realizar investimentos diretos, tendo em vista que precisa atingir \u201cde forma transparente\u201d a meta de super\u00e1vit prim\u00e1rio (receitas \u2013 despesas sem considerar os servi\u00e7os com juros da d\u00edvida), novamente para atender expectativas do mercado financeiro.<\/p>\n<\/p>\n<p>O capital produtivo critica o governo pela falta de horizonte na pol\u00edtica econ\u00f4mica. De fato, ter trazido a taxa de juros de refer\u00eancia (Selic) para 7,25% \u2013 seu menor patamar hist\u00f3rico \u2013 num momento, para nos meses seguintes aument\u00e1-la para 11,0%, pode deixar o investidor indeciso, pois o governo sinaliza para dire\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias (ora para setor produtivo, ora para setor financeiro).<\/p>\n<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial recente \u2013 que fez o d\u00f3lar atingir R$ 2,45 -, e a pol\u00edtica do BC, no sentido contr\u00e1rio, para n\u00e3o permitir grandes oscila\u00e7\u00f5es, mantendo o c\u00e2mbio em R$ 2,20, tamb\u00e9m sinaliza para uma pol\u00edtica que percebe ser mais favor\u00e1vel um c\u00e2mbio que permita menor press\u00e3o inflacion\u00e1ria e maiores investimentos (importa\u00e7\u00e3o de bens de capital \u2013 bens el\u00e1sticos), diante de um c\u00e2mbio que favore\u00e7a a competitividade dos produtos export\u00e1veis produzidos no pa\u00eds (em grande medida bens inel\u00e1sticos) num per\u00edodo que h\u00e1 menor demanda nos principais mercados externos (queda da demanda chinesa, recupera\u00e7\u00e3o lenta dos EUA e Europa e dificuldades na Argentina, importante mercado para os manufaturados produzidos no Brasil).<\/p>\n<p>Assim, nossa economia se desenvolve, fortalecendo o subdesenvolvimento. Ou seja, a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o perde competitividade \u2013 reduz atividade e diminui oferta de bens por ela produzidos para o mercado interno (em alguns segmentos as empresas importam o produto acabado para vender no mercado interno por obter maior margem\/excedente).<\/p>\n<p>O capital estrangeiro cada vez mais apropria-se das empresas locais (processo de desnacionaliza\u00e7\u00e3o), o que faz com que a renda acumulada no pa\u00eds n\u00e3o se transforme em poupan\u00e7a interna, mas seja remetida para o exterior (o que contribui para a retra\u00e7\u00e3o dos investimentos). Nossa economia fica dependente da exporta\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios e, de forma crescente, da eleva\u00e7\u00e3o da taxa de juros para atrair investimentos externos tamb\u00e9m em carteira, a fim de manter o equil\u00edbrio nas contas correntes (Balan\u00e7o de Pagamentos). H\u00e1 uma reserva de, aproximadamente, US$ 370 bilh\u00f5es que garantem relativa estabilidade, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para transformar nossa estrutura produtiva. Um passo nesse sentido teria o pressuposto de uma pol\u00edtica econ\u00f4mica de juro baixo, cambio desvalorizado e controle de capitais, ou seja, enfrentamento do \u201ctrip\u00e9 macroecon\u00f4mico\u201d do nosso pa\u00eds, o que n\u00e3o parece estar no horizonte de qualquer projeto em disputa nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, no entanto, n\u00e3o \u00e9 dram\u00e1tica no curto prazo, porque as pol\u00edticas antic\u00edclicas adotadas estimularam o consumo e a ocupa\u00e7\u00e3o formal. Ou seja, a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 baixa o que \u00e9 positivo, houve uma melhora nas condi\u00e7\u00f5es de vida de milh\u00f5es de trabalhadores. No entanto, cabe salientar que os resultados das medidas que geraram ocupa\u00e7\u00f5es formais e consumo foram canalizadas, em grande medida, para o setor de servi\u00e7os.<\/p>\n<p>E o problema, do ponto de vista do desenvolvimento, parece ser que foi para um setor de servi\u00e7os atrasado (apenas na forma de microempreendedor individual, foram 4,42 milh\u00f5es de novas ocupa\u00e7\u00f5es), com ocupa\u00e7\u00f5es de baixa produtividade e n\u00e3o para um setor de maior intensidade tecnol\u00f3gica, vinculado\/integrado as cadeias produtivas dos setores mais din\u00e2micos da ind\u00fastria e da agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esse crescimento do setor de servi\u00e7os passou a pressionar os sal\u00e1rios dos trabalhadores nas ind\u00fastrias, sendo esse mais um fator que teve seu custo elevado, apesar de ainda ser baixo, impactando as decis\u00f5es de novos investimentos, sobretudo, na ind\u00fastria intensiva em m\u00e3o de obra. Cabe destacar que a press\u00e3o sobre os sal\u00e1rios dos trabalhadores nas ind\u00fastrias ocorreu tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da queda da taxa de participa\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra em idade ativa, muito por conta da melhora da renda e das oportunidades em estudar, al\u00e9m da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores que est\u00e3o conquistando maiores ganhos reais nas negocia\u00e7\u00f5es coletivas.<\/p>\n<p>Assim, finalizando, o ambiente econ\u00f4mico externo ainda fraco \u2013 desacelera\u00e7\u00e3o da demanda chinesa e fraco desempenho das principais economias globais, que refletem uma queda de 5,1% nos pre\u00e7os internacionais de commodities nesse ano \u2013 e os desafios no ambiente interno acima listados, n\u00e3o nos permite vislumbrar maiores taxas de crescimento nesse momento. Para a economia brasileira crescer, na forma em que ela est\u00e1 constitu\u00edda, \u00e9 necess\u00e1rio que a demanda por nossos bens export\u00e1veis cres\u00e7a em volume, mas de forma fundamental em seus pre\u00e7os, a fim de que permita um incremento na taxa do excedente interno, da poupan\u00e7a e, quem sabe, dos investimentos.<\/p>\n<\/p>\n<p><strong> (*) Economistas do Dieese<\/strong><\/p>\n<p>The post A queda dos investimentos privados na economia appeared first on Economia SC.<\/p>\n<p>Via: <a href=\"http:\/\/economiasc.com.br\/queda-dos-investimentos-privados-na-economia\/\" class=\"colorbox\" title=\"A queda dos investimentos privados na economia\">economiasc.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"ftpimagefix\" style=\"float:left\"><img decoding=\"async\" width=\"250\" alt=\"cardoso\" src=\"http:\/\/economiasc.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/cardoso-300x300.jpg\"><\/div>\n<p><b> Daniel dos Passos, Jos\u00e9 \u00c1lvaro Cardoso e Mairon E. Brandes*<\/b><\/p>\n<p><b> <\/b><\/p>\n<p>O resultado do PIB brasileiro no primeiro trimestre evidencia crescimento, ainda que baixo, em rela\u00e7\u00e3o ao trimestre imediatamente anterior (0,2%). O que preocupa \u00e9 o valor adicionado pela ind\u00fastria (-0,8%) \u2013 retra\u00e7\u00e3o na de transforma\u00e7\u00e3o (-0,8%) e na de constru\u00e7\u00e3o civil (-2,3%), crescimento na extrativa mineral (0,5%) e na de eletricidade e g\u00e1s, \u00e1gua, esgoto e limpeza urbana (1,4%) \u2013 e a queda nos investimentos (-2,1%). Cabe destacar que, na compara\u00e7\u00e3o com o primeiro trimestre do ano passado, a ind\u00fastria registra crescimento de 0,8% e os investimentos mant\u00e9m a taxa negativa de 2,1%.<\/p>\n<p>O consumo das fam\u00edlias registrou leve queda na varia\u00e7\u00e3o trimestral (-0,1%) e registra crescimento com rela\u00e7\u00e3o ao ano passado (2,2%), enquanto o consumo do governo segue registrando crescimento (0,7% e 3,4%, respectivamente). Assim, percebe-se que, de fato, a retra\u00e7\u00e3o dos investimentos tem segurado um maior crescimento de nossa economia e esse \u00e9 um desafio que precisa ser superado n\u00e3o apenas para a economia crescer mais, mas tamb\u00e9m crescer de forma sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Por que a queda nos investimentos? Algumas considera\u00e7\u00f5es:  Quem investe s\u00e3o os capitalistas e o governo, n\u00e3o os trabalhadores. Os trabalhadores consomem e precisam ser melhor remunerados para que seu padr\u00e3o de consumo tamb\u00e9m mude, se diversifique, impulsione a demanda por manufaturados e desenvolva o mercado interno.<\/p>\n<p>Por parte dos empres\u00e1rios, existe, de um modo geral, uma cultura conservadora na gest\u00e3o dos neg\u00f3cios, com forte resist\u00eancia a investir e inovar. Existem estat\u00edsticas e estudos que corroboram essa afirma\u00e7\u00e3o. Segundo a Pintec de 2011, na ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, a m\u00e9dia de investimentos por empresa em pesquisa e desenvolvimento (P&amp;D) \u00e9 de 0,7% da receita l\u00edquida de vendas. Outro exemplo \u00e9 a pesquisa que partiu do prof. Paulo Feldmann da FEA\/USP que deu origem ao livro \u201cEmpresas Latino-Americanas\u201d, onde caracteriza o perfil dos empres\u00e1rios brasileiros.<\/p>\n<p>Mas a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas cultural, existem elementos objetivos\/materiais que desestimulam novos investimentos, sendo alguns de ordem estrutural e outros, conjuntural. Do ponto de vista conjuntural, o fato de termos elei\u00e7\u00f5es presidenciais em outubro pode fazer com que grandes projetos de iniciativa privada sejam adiados.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma enxurrada de an\u00e1lises, nos principais ve\u00edculos de m\u00eddia, que o ano de 2015 ser\u00e1 um ano de ajustes e se considerar-se as pesquisas de confian\u00e7a dos empres\u00e1rios, percebe-se um indicador em baixa. J\u00e1 os investimentos p\u00fablicos cresceram nesse per\u00edodo. Segundo uma pesquisa do Valor, que analisou os investimentos p\u00fablicos realizados em 25 unidades da federa\u00e7\u00e3o, esse dobrou no primeiro quadrimestre desse ano com rela\u00e7\u00e3o ao ano passado, atingindo a cifra de R$ 10,49 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>No plano estrutural, persiste na economia e sociedade brasileira uma estrutura de poder extremamente concentrada cujo processo se intensifica em tempos que o capital assume car\u00e1ter transnacional. O problema dessa din\u00e2mica \u00e9 que resulta na forma\u00e7\u00e3o de monop\u00f3lios ou oligop\u00f3lios que, n\u00e3o raramente \u2013 em fun\u00e7\u00e3o de press\u00f5es externas e internas \u2013 t\u00eam os pre\u00e7os dos seus produtos elevados, aumentado o custo e prejudicando a competitividade em outros setores da atividade industrial que dependem desses insumos (bens e servi\u00e7os).<\/p>\n<p>Apenas para constar, o lucro consolidado de 257 companhias que t\u00eam a\u00e7\u00f5es negociadas na Bolsa de Valores chegou a R$ 32,11 bilh\u00f5es no primeiro trimestre desse ano, uma alta de 6% com rela\u00e7\u00e3o ao ano passado. Se excluir dessa amostra a Petrobras, a Vale e a Eletrobr\u00e1s, a alta chega a 20%. Os bancos n\u00e3o foram considerados nessa amostragem, mas cabe destacar o resultado do Ita\u00fa, que teve lucro l\u00edquido de R$ 15,8 bilh\u00f5es em 2013 (alta de 12,8% com rela\u00e7\u00e3o a 2012) e do Banco do Brasil que lucrou, em 2013, R$ 15,7 bilh\u00f5es, uma alta de 29,1% sobre o resultado l\u00edquido de 2012.<\/p>\n<p>O Estado brasileiro \u2013 que cristaliza a for\u00e7a desse poder econ\u00f4mico em suas institui\u00e7\u00f5es -, e o governo, para n\u00e3o ficar de fora do jogo, participa de forma decisiva em setores econ\u00f4micos tidos como estrat\u00e9gicos em nossa economia, a fim de fortalecer esses setores diante da competi\u00e7\u00e3o internacional e manter algum poder de decis\u00e3o sobre eles e, em consequ\u00eancia, da nossa economia.<\/p>\n<p>O governo fica assim numa sinuca de bico. Ele precisa, por um lado, ceder a press\u00e3o dos pre\u00e7os nos setores em que participa diretamente, a fim de n\u00e3o travar a atividade econ\u00f4mica ou transmitir maior seguran\u00e7a para os investidores (mercado financeiro), permitindo novos investimentos e, por outro, n\u00e3o pode deixar os pre\u00e7os livres devido ao impacto inflacion\u00e1rio e suas implica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais. Ent\u00e3o o governo decide segurar os pre\u00e7os de bens e servi\u00e7os em setores estrat\u00e9gicos, nos quais mant\u00eam poder de decis\u00e3o, subsidiando as empresas e oferece subs\u00eddios monet\u00e1rios e fiscais \u2013 taxas de juros subsidiadas pelo BNDES (como atrav\u00e9s do Programa de Sustenta\u00e7\u00e3o de Investimentos), e dedu\u00e7\u00e3o de impostos (desonera\u00e7\u00e3o da folha de pagamentos de forma permanente para certos segmentos que s\u00e3o intensivos em m\u00e3o de obra e apresentam perda cont\u00ednua de competitividade, Reintegra, Refis, entre outras medidas \u2013 para o conjunto do sistema produtivo a fim de manter a atividade econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Com essa pr\u00e1tica, diminui sua pr\u00f3pria capacidade de realizar investimentos diretos, tendo em vista que precisa atingir \u201cde forma transparente\u201d a meta de super\u00e1vit prim\u00e1rio (receitas \u2013 despesas sem considerar os servi\u00e7os com juros da d\u00edvida), novamente para atender expectativas do mercado financeiro.<\/p>\n<\/p>\n<p>O capital produtivo critica o governo pela falta de horizonte na pol\u00edtica econ\u00f4mica. De fato, ter trazido a taxa de juros de refer\u00eancia (Selic) para 7,25% \u2013 seu menor patamar hist\u00f3rico \u2013 num momento, para nos meses seguintes aument\u00e1-la para 11,0%, pode deixar o investidor indeciso, pois o governo sinaliza para dire\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias (ora para setor produtivo, ora para setor financeiro).<\/p>\n<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial recente \u2013 que fez o d\u00f3lar atingir R$ 2,45 -, e a pol\u00edtica do BC, no sentido contr\u00e1rio, para n\u00e3o permitir grandes oscila\u00e7\u00f5es, mantendo o c\u00e2mbio em R$ 2,20, tamb\u00e9m sinaliza para uma pol\u00edtica que percebe ser mais favor\u00e1vel um c\u00e2mbio que permita menor press\u00e3o inflacion\u00e1ria e maiores investimentos (importa\u00e7\u00e3o de bens de capital \u2013 bens el\u00e1sticos), diante de um c\u00e2mbio que favore\u00e7a a competitividade dos produtos export\u00e1veis produzidos no pa\u00eds (em grande medida bens inel\u00e1sticos) num per\u00edodo que h\u00e1 menor demanda nos principais mercados externos (queda da demanda chinesa, recupera\u00e7\u00e3o lenta dos EUA e Europa e dificuldades na Argentina, importante mercado para os manufaturados produzidos no Brasil).<\/p>\n<p>Assim, nossa economia se desenvolve, fortalecendo o subdesenvolvimento. Ou seja, a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o perde competitividade \u2013 reduz atividade e diminui oferta de bens por ela produzidos para o mercado interno (em alguns segmentos as empresas importam o produto acabado para vender no mercado interno por obter maior margem\/excedente).<\/p>\n<p>O capital estrangeiro cada vez mais apropria-se das empresas locais (processo de desnacionaliza\u00e7\u00e3o), o que faz com que a renda acumulada no pa\u00eds n\u00e3o se transforme em poupan\u00e7a interna, mas seja remetida para o exterior (o que contribui para a retra\u00e7\u00e3o dos investimentos). Nossa economia fica dependente da exporta\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios e, de forma crescente, da eleva\u00e7\u00e3o da taxa de juros para atrair investimentos externos tamb\u00e9m em carteira, a fim de manter o equil\u00edbrio nas contas correntes (Balan\u00e7o de Pagamentos). H\u00e1 uma reserva de, aproximadamente, US$ 370 bilh\u00f5es que garantem relativa estabilidade, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para transformar nossa estrutura produtiva. Um passo nesse sentido teria o pressuposto de uma pol\u00edtica econ\u00f4mica de juro baixo, cambio desvalorizado e controle de capitais, ou seja, enfrentamento do \u201ctrip\u00e9 macroecon\u00f4mico\u201d do nosso pa\u00eds, o que n\u00e3o parece estar no horizonte de qualquer projeto em disputa nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, no entanto, n\u00e3o \u00e9 dram\u00e1tica no curto prazo, porque as pol\u00edticas antic\u00edclicas adotadas estimularam o consumo e a ocupa\u00e7\u00e3o formal. Ou seja, a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 baixa o que \u00e9 positivo, houve uma melhora nas condi\u00e7\u00f5es de vida de milh\u00f5es de trabalhadores. No entanto, cabe salientar que os resultados das medidas que geraram ocupa\u00e7\u00f5es formais e consumo foram canalizadas, em grande medida, para o setor de servi\u00e7os.<\/p>\n<p>E o problema, do ponto de vista do desenvolvimento, parece ser que foi para um setor de servi\u00e7os atrasado (apenas na forma de microempreendedor individual, foram 4,42 milh\u00f5es de novas ocupa\u00e7\u00f5es), com ocupa\u00e7\u00f5es de baixa produtividade e n\u00e3o para um setor de maior intensidade tecnol\u00f3gica, vinculado\/integrado as cadeias produtivas dos setores mais din\u00e2micos da ind\u00fastria e da agropecu\u00e1ria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esse crescimento do setor de servi\u00e7os passou a pressionar os sal\u00e1rios dos trabalhadores nas ind\u00fastrias, sendo esse mais um fator que teve seu custo elevado, apesar de ainda ser baixo, impactando as decis\u00f5es de novos investimentos, sobretudo, na ind\u00fastria intensiva em m\u00e3o de obra. Cabe destacar que a press\u00e3o sobre os sal\u00e1rios dos trabalhadores nas ind\u00fastrias ocorreu tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da queda da taxa de participa\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra em idade ativa, muito por conta da melhora da renda e das oportunidades em estudar, al\u00e9m da organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores que est\u00e3o conquistando maiores ganhos reais nas negocia\u00e7\u00f5es coletivas.<\/p>\n<p>Assim, finalizando, o ambiente econ\u00f4mico externo ainda fraco \u2013 desacelera\u00e7\u00e3o da demanda chinesa e fraco desempenho das principais economias globais, que refletem uma queda de 5,1% nos pre\u00e7os internacionais de commodities nesse ano \u2013 e os desafios no ambiente interno acima listados, n\u00e3o nos permite vislumbrar maiores taxas de crescimento nesse momento. Para a economia brasileira crescer, na forma em que ela est\u00e1 constitu\u00edda, \u00e9 necess\u00e1rio que a demanda por nossos bens export\u00e1veis cres\u00e7a em volume, mas de forma fundamental em seus pre\u00e7os, a fim de que permita um incremento na taxa do excedente interno, da poupan\u00e7a e, quem sabe, dos investimentos.<\/p>\n<\/p>\n<p><strong> (*) Economistas do Dieese<\/strong><\/p>\n<p>The post A queda dos investimentos privados na economia appeared first on Economia SC.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-2567","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias","no-post-thumbnail"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2567","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2567"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2567\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2567"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2567"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cdlbc.com.br\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2567"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}